O ET de Varginha: O Visitante que Cheirava a Enxofre
TEORIAS DA CONSPIRAÇÃOBRASIL


Tudo começou em janeiro de 1996, na pacata cidade de Varginha, Minas Gerais, um lugar conhecido por seu café, queijo minas e tranquilidade interiorana. No dia 20 de janeiro, três jovens — as irmãs Liliane e Valquíria Silva, de 16 e 14 anos, e a amiga Kátia Xavier, 22 — juram ter visto algo impossível: uma criatura bípede, castanha, de pele viscosa e oleosa, com veias grossas saltadas, cabeça grande sem cabelo, olhos vermelhos enormes e três protuberâncias na testa. A criatura estava agachada num terreno baldio perto da Rua do Sapateiro, exalando um cheiro forte de enxofre ou amônia. A reação delas foi a mais lógica em terras mineiras: fugiram gritando, convencidas de que tinham visto o próprio “Cão” (o Diabo). Em Minas, se não for santo, é demônio — ponto final.
A história não parou nas meninas. No mesmo dia, outro morador relatou ter visto uma criatura semelhante correndo pela zona rural. Horas depois, o Corpo de Bombeiros foi acionado para capturar “um animal estranho” no bairro Jardim Andere. Testemunhas afirmam que militares do Exército chegaram rapidamente, isolando a área, e que um dos seres foi capturado vivo com redes ou tranquilizantes. A versão oficial? Os bombeiros capturaram um anão com deficiência mental conhecido como “Mudinho”, que estava sujo de lama após cair num córrego. A explicação é considerada pela ufologia brasileira a mais ofensiva da história: “Não era um alienígena, era só o vizinho que precisava de um banho”.
A narrativa ganhou corpo nos dias seguintes. O Hospital Regional de Varginha e o Hospital Humanitas teriam sido isolados por ordem militar. Médicos, enfermeiros e funcionários relatam movimento incomum de caminhões do Exército, entradas e saídas restritas, e um cheiro insuportável de enxofre ou enxofre misturado a amônia que impregnou corredores e salas. Alguns afirmam que uma das criaturas morreu no hospital e que o corpo foi removido em caixão de chumbo ou contêiner selado. A outra teria sido transferida para Campinas, possivelmente para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apelidada pelos ufólogos de “o MIT dos homenzinhos verdes”.
O caso do soldado Marco Eli Chereze tornou-se o mártir oficial da ufologia brasileira. O PM, de 23 anos, integrante do 7º Batalhão da Polícia Militar, teria capturado uma das criaturas com as mãos nuas durante uma operação noturna. Sem luvas ou proteção, ele desenvolveu uma infecção generalizada grave e morreu em 15 de fevereiro de 1996, oficialmente por septicemia causada por uma bactéria rara (Streptococcus bovis). Para os ufólogos, foi uma contaminação alienígena contra a qual o corpo humano não tem defesa; para o governo e a família, foi mera coincidência médica. Chereze virou símbolo: o homem que tocou no inexplicável e pagou o preço supremo.
A presença de aviões da Força Aérea Americana (USAF) no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, na mesma semana é considerada a “prova de fogo” pelos pesquisadores. Testemunhas afirmam que dois aviões C-5 Galaxy e C-141 Starlifter pousaram em 21-22 de janeiro, com escolta militar pesada. O que faziam ali? Os oficiais dizem que era manutenção de rotina ou transporte de equipamentos; os ufólogos respondem que os americanos vieram recolher os corpos ou o ser vivo para a Área 51. Num país onde até comboio de trem chega atrasado, os EUA chegam na hora certa para apanhar ETs — coincidência demais.
Varginha abraçou a loucura com humor mineiro característico. Hoje, a cidade tem caixa d’água em forma de nave espacial, pontos de ônibus com esculturas de aliens, estátuas do ET nas praças, museu dedicado ao caso e uma economia local turbinada por turismo ufológico. Varginha virou a “Capital Nacional do ET”, com camisetas, chaveiros, canecas e até cachaça “ET de Varginha”. Se os aliens voltarem, provavelmente serão cobrados por estacionamento irregular e taxa de turismo.
Ufólogos como Ademar Gevaerd (editor da Revista UFO), Ubirajara Franco Rodrigues e o falecido Capitão Sérgio Coutinho dedicaram décadas ao caso. Eles afirmam existir um pacto de silêncio entre o Exército Brasileiro e os EUA, com documentos classificados e testemunhas ameaçadas. “O Brasil é o quintal de testes dos americanos”, dizem. Se for verdade, os ETs devem estar horrorizados com o preço da gasolina, a burocracia para tirar título de eleitor extraterrestre e a fila do INSS intergaláctico.
Nos últimos anos, novos depoimentos de militares reformados surgiram em documentários e livros. Em 2016, por ocasião dos 20 anos do caso, o sargento aposentado Carlos de Souza afirmou ter visto o corpo de uma criatura no Hospital Regional. Em 2022-2023, o sargento Pedrão (apelido) e outros ex-militares falaram em entrevistas sobre um “acordo secreto” e sobre terem sido pressionados a assinar termos de confidencialidade. Nenhum documento oficial vazou, mas a consistência dos relatos mantém o caso vivo.
A teoria diz que um dos ETs está preservado em nitrogênio líquido num laboratório secreto sob a Unicamp ou no Centro Técnico Aeroespacial (CTA) em São José dos Campos. Se um dia houver apagão em Campinas e o gelo derreter, teremos a prova definitiva — ou um cheiro de enxofre que vai durar semanas. Até lá, o ET de Varginha vive no imaginário coletivo como o turista mais azarado da galáxia: veio de Alfa Centauri ou Zeta Reticuli para acabar agachado num terreno baldio em Minas Gerais.
O caso também inspirou cultura pop brasileira. Filmes como “O Caso Varginha” (documentário de 2016), séries de TV, músicas sertanejas (“O ET de Varginha cheira a enxofre, ô lá no céu tem disco voador”) e memes infinitos nas redes sociais. É o Roswell brasileiro, mas com pão de queijo, tutu de feijão e um humor autodepreciativo que transforma trauma em piada nacional.
A explicação oficial nunca convenceu. O Exército e a FAB negam tudo: não houve OVNI, não houve captura, não houve americanos. A criatura era o “Mudinho” (que, aliás, negou tudo em entrevistas posteriores) ou um macaco deformado, ou alucinação coletiva. Mas a quantidade de testemunhas independentes — civis, bombeiros, médicos, enfermeiros, policiais — e a coerência dos relatos sobre o cheiro de enxofre tornam a versão oficial difícil de engolir.
O cheiro de enxofre, aliás, é um detalhe recorrente em relatos ufológicos globais: Mothman, Chupacabras, casos de abdução. Alguns dizem que é gás metano ou enxofre orgânico dos corpos alienígenas; outros, que é um subproduto de propulsão antigravitacional. Em Varginha, o cheiro impregnou hospitais, viaturas e roupas dos envolvidos por dias, reforçando a sensação de algo verdadeiramente “outra coisa”.
Em resumo, o ET de Varginha é a prova de que o brasileiro não está preparado para contato imediato de terceiro grau, mas está sempre pronto para transformar mistério em meme, turismo e orgulho local. Se vir algo com olhos vermelhos, pele oleosa e cheiro de ovo podre, não chame a NASA nem a FAB; chame o exército para levar o “vizinho” para Campinas. Porque aqui, se não for santo, é demônio — ou ET com sotaque mineiro e destino de museu.


